quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Froome e a Sky ou a Sky e Froome - parte cinco.


A Sky foi criada com o rótulo "zero doping". Vários colaboradores foram despedidos por terem estado no passado associados a práticas dopantes. E aconteceu 2017. Ano em que vários episódios antigos passados dentro da Sky e em grande parte relacionados com Wiggins criaram muita confusão. Com a Sky a ter muitas dificuldades em explicar determinados injectáveis, computadores e registos desaparecidos... 
Froome manteve uma prudente distância em relação a toda esta embrulhada, não sendo particularmente solidário nem crítico. Ele e Wiggins nunca tinham sido amigos. Até que rebenta a história do salbutamol, justamente poucos dias depois de Froome anunciar que iria tentar em 2018 aquilo que desde Pantani, o dopado Pantani, em 1998, ninguém voltara a conseguir: a dupla Giro-Tour, as duas provas mais difíceis do calendário velocipédico.

Devido ao Campeonato do Mundo de Futebol a distância entre Giro e Tour aumentara uma semana, o que em recuperação de um ciclista é muito. Era portanto uma oportunidade única para Froome entrar para a História, ele, ele mais do que a Sky, até porque ano após ano os corredores que a Sky mandava à Volta a Itália falhavam, um atrás do outro. Froome ia pôr fim à maldição da Sky no Tour e fazer aquilo que antes só Coppi, Anquetil, Merckx, Hinault, Stephen Roche e Pantani tinham feito, acedendo assim ao Olimpo do Ciclismo. Mais importante: da sua geração Contador tinha tentado e falhara, Quintana tinha tentado e falhara. E o salbutamol?
Se a Sky pertencesse ao Mouvement Pour un Cyclisme Crédible, que agrupa para aí metade das equipas WorldTour, Froome teria sido automaticamente suspenso de competir. Mas a Sky nunca quis pertencer a um grupo tal, onde seria "apenas-mais-uma". Portanto Froome competiu - teimosia dele ou da Sky? - foi ao Giro e, melhorando a sua prestação à medida que a corrida ia decorrendo, acabou por ganhar com duas vitórias de etapa brilhantes, incluindo um ataque de longe, fulgurante, algo nunca visto em Froome! Era Froome a correr para a história, mesmo! Não a Sky, Froome! Com esta vitória Froome tinha na sua mão as vitórias das três grandes voltas, em sequência - Tour 2017, Vuelta 2017, Giro 2018! Uma equipa estratosférica de advogados conseguiu entretanto dar a volta à UCI  e Froome foi ilibado dias antes do Tour - com um argumentário que de tão espesso era "incomentável". E começou o Tour.

Froome terminou terceiro no Tour, atrás - surpresa! - de Dumoulin e - mais surpresa ainda! - de Geraint Thomas, seu colega de equipa e amigo, apenas um ano mais novo e que corre com ele desde os tempos daquela entrevista ao Cycling Weekly, em 2008. Thomas ganhou o Tour aos 32 anos, a mesma idade que tinha Wiggins em 2012. Como Wiggins Thomas também começara na pista, mas nem era uma super-estrela nem tinha feito antes um top-dez no Tour, só "ameaçado" em 2015. E ja andava na estrada há bastantes anos. Thomas ganhou porque foi superior a Froome a rolar - perdeu menos tempo que todos nas primeiras etapas - a subir, nunca parecendo gastar tudo - e no contra-relógio, que poderia ter ganho na penúltima etapa não tivesse levantado o pé nos últimos kms para dar uma etapa ao amigo Froome, que não aconteceu por segundo e meio. Isto foi mais uma vitória da Sky mas também de Thomas, ainda por cima um tipo bem mais simpático do que o macambúzio Froome.


E agora? 
Já quase nos esquecemos que a Vuelta de 2017 devia ter sido retirada a Froome e atribuida a Nibali. Que Froome não devia ter participado no Tour, ao ser castigado pelos seus níveis de salbutamol, excessivos porque sim, como antes tinha sido por exemplo castigado Diego Ulissi.
Não sei se Thomas irá à Vuelta. Meu Deus, e se ele a ganha?

2019 vai ser um ano interessante para o ciclismo, todos os anos são. Há dezenas de provas, pequenas e grandes, onde o drama, a dedicação e o sacrifício de muitos se perde em derrotas inglórias ou frutifica em vitórias brilhantes, daquelas que fazem brilhar os olhos a nós, os adeptos. O Tour não vai, mais uma vez, ser uma destas provas. O vencedor vai ser um de dois: Christopher Froome ou Geraint Thomas. Como trabalhará a Sky esta dicotomia? A ver vamos.

A não ser que o Tom Dumoulin...

P.S.: esclareço que acredito que Froome corre limpo. Só não correu naquele dia de 2017 onde...

Froome e a Sky ou a Sky e Froome - parte quatro.


Está disponível na internet uma entrevista que Froome deu à Cycling Weekly em 2008. Dez anos depois, a distância entre o Froome de agora e o de então mede-se em anos-luz.

Froome em 2017 fez 32 anos. A idade em que a carreira de um ciclista começa a entrar numa fase "madura". E Christopher Froome começou a achar que tinha chegado aquele ponto da jornada em que devia começar a preparar a sua partida - não no sentido de que iria correr pouco mais anos mas no sentido de modelar e engrandecer a sua imagem, decidir onde ia ficar o seu quadro, em que lugar,  na galeria da glória dos Maiores de Sempre. Pois não era já Froome um deles? Julgo que este raciocínio foi precipitado pela retirada anunciada de Alberto Contador, no fim de 2017.

Aparentemente Froome terá atrasado a sua preparação em 2017 para ir mais forte para a Vuelta. Mas a verdade é que o Tour de 2017 não foi um piquenique no parque. Parece que foi ontem..  pela primeira vez Froome perdeu a camisola amarela durante umas etapas, para o irreverente Fabio Aru. Depois Uran esteve sempre ali muito próximo, muito próximo... E, finalmente o seu lugar-tenente Landa, um poço de força, não lhe era tão tão fiel e certo como fôra por ex. Poels no ano anterior. 
A Vuelta acabou por ser bem difícil de ganhar para Froome porque encontrou pela sua frente um Nibali muito forte. A equipa da Sky era a mais forte que já tinha levado a Espanha: Moscon, Nieve, Poels e David Lopez. Mas aqui e ali Froome pareceu um bocado justito. Chega a 17ª etapa e Nibali saca quase um minuto a Froome, metade da vantagem que este tinha. Esperou-se com ansiedade o resultado da 18ª. Desilusão: Froome termina à frente de Nibali e este resistir setencia a Vuelta. Meses depois viríamos a saber que Froome nesta etapa acusaria níveis de salbutamol na urina 2x superiores ao permitido. Percebem ou querem que eu faça um desenho?

Froome e a Sky ou a Sky e Froome - parte três.


2014 foi o ano horribilis da Sky no Tour. Froome caiu uma data de vezes, pressionado por um Nibali muito cedo de amarelo. Depois Porte tentou mas não conseguiu pegar na bandeira. Froome apontou à Vuelta para salvar o ano. Teve pela  frente Contador, que também caira no Tour, e... perdeu para Contador, o que deve ter doído! 
Froome tornara-se no entanto o voltista de referência da Sky, sem plano B. O seu estilo máquina de costura em alta rotação a escangalhar-se não seria bonito de ver, mas a equação era a habitual para o Tour: dominar nos contra-relógios e rematar nas montanhas. Como seria 2015?

A Sky mandou em 2015 dois escudeiros de Froome ao Giro para ver como corria a coisa: Porte e Thomas. Correu mal. Mas para o Tour a Sky apresentou-se reforçada apreciavelmente, com Kwiatkowski, Leopold Konig e, sobretudo, Wout Poels.
Froome não mandou na prova mas a Sky sim. E a imagem do comboio da Sky montanha acima a dominar nos Alpes e nos Pirinéus, um comboio composto por três e às vezes quatro elementos com Froome atrás tapadinho ganhou aqui especial força. Só na última etapa, quando Thomas desfaleceu,  Froome tremeu e Quintana conseguiu partir montanha acima.  Mas foi demasiado pouco demasiado tarde. Foi em 2015 que a antipatia por este domínio, este sufôco do Tour pela Sky se tornou também uma instituição. Porque lembrava a US Postal de Armstrong. Mas sem Froome a rematar as faenas como Armstrong. A pergunta sempre a pairar: ganharia Froome sem a Sky?
Em 2016 a história foi a mesma, com um Wout Poels imperial - e às vezes a parecer mais forte do que Froome, e em 2017 também, com um Kwiatkowski em superavit e um Mikel Landa também a parecer, aqui e ali, mais forte do que Froome. Uma vez mais, as vitórias eram de Froome ou da Sky? 
Fora do Tour, Froome ganhava cada vez menos. Froome em 2015 ganhara Andalucia e o Dauphiné, em 2016 apenas o Dauphiné. Mas em 2016 voltou à Vuelta. Perdendo-a para Quintana por um deslize da equipa aproveitado por Contador levando Quintana a reboque.

Em 2017 Froome antes do Tour não ganhou nada. E voltou à Vuelta.

Froome e a Sky ou a Sky e Froome - parte dois.

O ano de 2013 foi o primeiro em que a Sky de equipa outsider já entrava no ano como equipa de referência: afinal a Sky tinha conseguido os dois primeiros lugares no pódio do Tour no ano anterior, para além de vitórias em variadas outras corridas de etapas. Wiggins tinha sido o corredor a dominar a época de 2012 e Froome a grande confirmação, após o salto qualitativo de 2011. Ainda em 2012 Froome fôra, pela primeira vez como chefe-de-fila à Vuelta, a primeira de muitas vezes, e acabou em quarto, nitidamente cansado mas confirmando que era um ciclista para "grandes alturas". Lembro que foi esta Vuelta ganha por Contador, no seu retorno ao activo após suspensão por doping. 

Froome dominou amplamente o Tour de 2013. Teve em Richie Porte um fiel escudeiro, mas não precisou dele tanto como Wiggins precisara de Froome em 2012 e nunca lhe pareceu inferior, antes pelo contrário. Froome venceu ainda o Criterium International, a Romandia e o Dauphiné, dominando completamente o ano. A única derrota fôra no Tirreno Adriático, frente a Nibali, numa descida. 
O aparecer de Froome tinha resolvido a dúvida sobre o pos-Wiggins. Nem a Sky sabia o quanto isso era verdade.

Froome e a Sky ou a Sky e Froome - parte um.


A Sky começou em 2010. Na sequência do êxito do ciclismo britânico na pista, a televisão Sky foi convencida a apoiar a criação de uma equipa inglesa de ciclismo de estrada. O Reino Unido tinha até então pouca tradição no ciclismo de estrada, pódiums no Giro e na Vuelta com Robert Millar, um Campeonato do Mundo com o malogrado Tom Simpson.
Na primeira leva de 2010 foram contratados Christopher Froome e Geraint Thomas, antes ciclistas na equipa inglesa / sul-africana da Barloworld. Bradley Wiggins só entrará na equação a sério em 2011. Portanto, Froome e a Sky nasceram um com o outro.
Froome, todos sabemos, nasceu em 1985 no Quénia, filho de ingleses. Passou a juventude na África do Sul e aí começou a correr e a competir, sendo a sua primeira influência o corredor sul-africano Robert Hunter, daí a Barloworld. Correu em 2008 em Portugal, na extinta Volta ao Distrito de Santarém. E em 2009 foi "um prometedor" 36º no Giro. Em 2010 e na primeira metade de 2011 terá estado a combater uma famosa bilharzíase, doença com origem africana. Tratada a coisa, a primeira corrida de responsabilidade de Froome foi a Vuelta de 2011, onde Wiggins ia tentar pela primeira vez ganhar uma prova de três semanas. Froome aguentou onde Wiggins tremeu, bateu-o nas montanhas, no contra-relógio, e discutiu a vitória palmo-a-palmo com um espanhol, Cobo, que, este sim, nunca mais voltou a fazer nada de jeito. Sucederam-se os artigos sobre a surpresa Froome. Escreviam sobre um "natural-climber" que, já em 2010, fora segundo no campeonato inglês de contra-relógio. O anonimato dos primeiros anos de profissionalismo de Froome teriam sido pela tal da bilharziose? A verdade é que Froome revela-se já na "idade do passaporte biológico" e este nunca apitou. O salbutamol viria só seis anos depois. A verdade também é que se a Vuelta de 2011 não tivesse acontecido Froome teria sido despedido da Sky.

Quando a Sky foi criada a ideia era "ganhar o Tour em cinco anos". Aconteceu logo em 2012. E em 2013 e 2015 e 2016 e 2017 e 2018.
Bradley Wiggins já era uma estrela antes de chegar à Sky. Cinco anos mais velho do que Froome, multi-medalhado na pista, em 2009 conseguira um quarto lugar no Tour, surpreendendo tudo e todos, logo atrás de Armstrong. Portanto... se em 2010 Wiggins andou "a pastar" e em 2011, depois de ganhar o Dauphiné, caiu no Tour e tremeu na Vuelta, no Tour de 2012 Wiggins era na mesma o chefe-de-fila da Sky e Froome - a confirmar-se a sua prestação na Vuelta - a sua principal ajuda, o "super-domestique". Quando se fala de 2012 as pessoas esquecem que nesse ano Wiggins ganhou também o Paris-Nice, a Volta à Romandia e o Dauphiné, para além do Tour. Ah, e a medalha de ouro no contra-relógio dos Jogos Olímpicos de Londres. Nem nos seus melhores sonhos a Sky pensaria ganhar tanto tão cedo. E, com a excepção de parte do Tour, nada disto foi feito às costas de Froome. Peso por peso, Froome nunca produziu depois um ano assim. Mas a realidade é o que lembramos: Froome a esperar por Wiggins nas subidas do Tour. Isto demonstrou duas coisas: Froome era o futuro da Sky no que ao Tour dizia respeito, primeiro, e Froome não gostava de esperar por ninguém, segundo.

domingo, 8 de abril de 2018

Hoje é o Paris-Roubaix.

Hoje é o Parix-Roubaix, ontem terminou a Volta ao País Basco e portanto a época acabou de começar, agora já estamos no mais grosso da coisa. 
Nesta fase há duas narrativas paralelas que decorrem. Uma é a das clássicas do "pavé", cheias de corredores sólidos e pesados. A outra é a das provas de uma semana que vão transportando os ciclistas voltistas até ao Giro ou até ao Tour. 

E ontem acabou a Volta ao País Basco. Que prova bonita de ver, e que prova confusa! Conclusões foram umas quantas. Primeira: Primoz Roglic é dos ciclistas mais interessantes que para aí há e é um futuro grande voltista. Tem 28 anos, sobe mais do que razoavelmente e é um excelente contra-relogista. Deu dois minutos à concorrência o que é obra! Segunda: nem sempre quando a Movistar mete toda a carne no assador a vitória é certa. Landa e Quintana não se ajudaram. E ganharam... nada. Landa parece estar afinado, Quintana preocupa. Vamos ver no Tour. Terceira: a Sky gastou as pilhas. Nem em Flandres nem em Euskadi fez sombra a ninguém. David de la Cruz foi 9º em Euskadi... Quarta e última: e a malta que é candidata ao top cinco do Tour? Que se passa com eles? Quase todos foram a Euskadi mas porém... Da Movistar já falei - Landa está, Quintana ainda não. Bardet foi 13º logo atrás de Rui Costa. Nibali desistiu gasto pelo esforço que foi fazer um lindo em Flandres. Richie Porte desistiu anonimamente, coisa rara nele. Uran aguentou um top dez até também desistir. Zakarin foi 21º e até andou a entreter-se em fugas mal sucedidas. Mollema fez a coisa do costume: mais ou menos e terminou em 7º. Faltaram Daniel Martin, que este ano ainda não deu sinais de vida, e Pinot, idem. Valverde não conta para estas contas. Da Sky Froome nunca fez Euskadi e Thomas deve estar a consultar o I Ching para saber o que vai ser o seu papel no Tour. A minha interpretação? Estão todos na retranca a atrasar o mais possível o pico de forma, não vão chegar passaditos ao Tour. É que este ano vai ser um Tour Froome-less, dizem!

E o "pavé"? Quick-Step, e o resto são lérias. A equipa belga até agora ganhou tudo. E o campeão Olímpico van Avermaet ainda não ganhou nada e o campeão Mundial Peter Sagan só ganhou Gent-Wevelgem. O ano deles depende de... HOJE. 

PS.: o Rui Costa está à porta de um mês decisivo, o das Clássicas das Ardenas. Boa sorte para ele!

sexta-feira, 30 de março de 2018

Depois de amanhã é coisa a sério. a Volta a Flandres!

Depois de manhã acontece a Volta a Flandres. Coisa para ciclistas de barba rija, músculo seco e pulmão quanto baste para 267 quilómetros. Estaremos atentos a Sagan, que venceu em 2016, Gilbert, que venceu em 2017, e Avermaet, que nunca venceu.
E como têm corrido as coisas até aqui? Na pontuação do WorldTour aparece à frente Valverde, que faz 38 anos num dia feriado, o 25 de Abril. Valverde não se prepara especificamente para nenhuma prova de três semanas, é com se estivesse sempre preparado. Alejandro Valverde sofreu uma suspensão de dois anos por estar envolvido na Operación Puerto, um esquema de doping sanguíneo. Desde então corre sem parar, ganha como se não houvesse um amanhã. Como para provar a cada dia que passa a sua qualidade, fazer esquecer a nódoa. Sobram-lhe duas mágoas: só ter ganho uma volta de três semanas, uma de Espanha, antes da suspensão e da existência do passaporte biológico e, por outro lado, nunca ter sido Campeão do Mundo. Esteve perto, bem perto, por exemplo no ano em que Rui Costa o foi. Esta época Valverde já venceu Comunitat Valeciana, Abu Dhabi e Catalunya, Valverde, no que diz respeito a provas de uma semana, é um dos maiores de sempre.
Mas as vitórias de Valverde já não são surpresa. Portanto, o que aconteceu de diferente para nosso entretenimento? As surpresas habitualmente acontecem nas provas de um dia. Portanto, falemos sobretudo de Tiesj Benoot, um jovem belga de 24 que ganhou a Strade Bianche, ou do "velho" Vincenzo Nibali, um homem de três semanas e que já ganhou os três GT's, arrematar a Milano-Sanremo com um ataque inatacável no Poggio. Nibali está a correr para a história, e por isso amanhã vai correr a Volta a Flandres, "para ver como é". Lembro que a Volta a Flandres é um dos cinco Monumentos, as cinco provas de um dia mais importantes do ano. Agora Nibali já ganhou os dois Monumentos italianos, a referida e a Lombardia. Faltam-lhe os outros três...
Entretanto nas provas de uma semana apareceram dois jovens a confirmar o nível que se suspeitava, Marc Soler com a Movistar, e mais  um colombiano, Egan Bernal, com a Sky, este apenas com 21 anos. Tudo o mais gente com pedigree a preparar-se para a Itália, para França, e sem saber se Froome vai estar nelas ou não. E aqui voltamos à vaca fria.
Wout Poels já disse que se Froome não estivesse ELE lideraria a Sky no Giro. Geraint Thomas já disse que se Froome não estivesse no Tour seria ELE a liderar a Sky. Mas tudo aponta que o Giro vai ter que aguentar com Froome, enquanto o Tour vai tentar a via judicial para o impedir de entrar. Portanto, a solidariedade dentro da equipa Sky já mostra rachas. Lembremos que o ciclismo é uma profissão. Se  o ciclismo é justo Froome vai perder a sua vitória na Vuelta do ano passado e também o Giro deste ano, este correndo na estrada. No Tour não vai por os pés.

Mas voltemos ao que interessa, depois de amanhã é a "Ronde".

E os portugueses? Têm-se visto em fugas, não em resultados. Amaro Antunes voltou a correr. E segunda começa Euskadi, com Rui Costa e Rúben Guerreiro. A ver vamos.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O começo de uma nova época? Naaaaa....

A época ciclística ainda não começou. Repito, a época ciclística ainda não começou. Tudo está, todos estão pendentes do caso Froome. Lembrando, Froome acusou valores proibidos de salbutamol na urina na etapa da Vuelta de 2017 em que deu a volta ao texto e distanciou definitivamente Nibali, O mais provável é ter abusado do inalador e portanto devia ser suspenso e perder a Vuelta. Fosse assim simples...
Portanto, enquanto isto nada feito, ninguém liga muito ao que o ciclismo realmente é, uma saga de sacrifício e heroísmo que no século XXI começa no Tour Down Under australiano  e termina em Novembro numa prova qualquer na China. Mas nós vamos fazer de conta que Froome não existe

A malta anda confusa. A Down Under foi ganha por um sul-africano all rounder quase veterano, Daryl Impey, que foi mais esperto do que o Richie Porte do costume. Que depois veio ao Algarve apenas passear. Do outro lado dos oceanos, as forças do World Tour correram a Vuelta a San Juan anestesiadas - ganhou um rapaz argentino da casa. Ainda aconteceu na Austrália a Herald Sun Tour, ganha pelo colombiano Chaves. Enquanto na Colômbia numa prova novinha em folha ganhavam... mais colombianos. Depois viemos para Península Ibérica, uns, fomos para o Médio Oriente, outros. A Valenciana foi comida pelo "eterno" Valverde, quase 38 anos feitos. Depois o Algarve pertenceu á Sky, Andalucia a um herói belga da classe operária, Tim Wellens, de quem eu gostaria de ser muito amigo. No Médio Oriente Dubai foi uma volta plana, ergo ganha por Viviani, feliz, solto e atrevido porque saiu... da Sky. Oman tem alguma montanhinha, e ganhou um gajo novo da Astana, um tal Lutsenko.
Provas de um dia? A Cadel Evans ganhou-a um australiano que finalmente vai aparecer, Jay McCarthy. Nas corridas de Maiorca, de muita tradição, Degenkolb finalmente voltou a ganhar.
Nos sprints? Até Cavendish ganhou, só Kittel até agora é que não: nova equipa novo comboio...

Os portugueses? Rui Costa gripou na Austrália, em Oman já fez mais um segundo lugar e terminou décimo. À Velonews deu a entrevista do costume a dizer que esqueceu de vez as três semanas. Enquanto isto o jovem Rúben Guerreiro está a mostrar serviço. Top dez na Down Under e Herald Sun Tour, segundo no Malhão no Algarve. Algarve onde, porque fez um óptimo CR, Nelson Oliveira acabou décimo, o que, visto o plantel deste ano, foi bem bom. O herói do ano passado do Malhão, Amaro Antunes, hoje na CCC polaca, fez décimo na Valenciana, muito bem, e ia pelo mesmo caminho na Andaluzia mas caiu e desistiu. Vamos ver como segue. José Mendes rolou razoável na Andaluzia, o José Gonçalves idem na Austrália, o Tiago Machado faz kms e por agora é isso, as equipas portuguesas no Algarve este ano nem pio!

Mas escrevo isto só por escrever, porque o importante é o que vai acontecer ao Froome!

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Afinal qual é o problema com a W52/F.C.Porto?

A equipa do Sobrado voltou a ganhar a Volta a Portugal e, mais uma vez, ganhou como quis e "escolhendo" o vencedor. A superioridade foi tanta que, imediatamente, as suspeitas de doping correram mundo. A Volta a Portugal é uma prova de um escalão relativamente baixo, pertencendo ao nível intermédio do European Tour. As equipas portuguesas pertencem ao escalão profissional mais baixo e não estão obrigadas a participar no programa de Passaporte Biológico da UCI. Pelo que sei existe porém um programa de Passaporte Biológico promovido pela FPC...

O pelotão português é composto por seis equipas profissionais, a W52/Porto, o Sporting/Tavira, a Efapel/Glassdrive, a Rádio Popular/Boavista, a Louletano/Hospital de Loulé e a LA Alumínios/Metalusa. As equipas são compostas por um grosso de ciclistas portugueses e uma capa de ciclistas espanhóis que, desde há anos, buscam em Portugal o emprego que lhes falta em Espanha com o fecho recente de muitas equipas profissionais espanholas. Outros estrangeiros são, hoje em dia, excepção. Em décadas que já lá vão corriam cá muitos ciclistas com origem na europa de leste mas já não é assim.

Cada equipa tinha à partida para a Volta bem definidos os seus chefes de fila e as mais valias para a Classificação Geral.
A LA Alumínios tinha o Edgar Pinto que, com dois top 5 na Volta e depois de dois anos a correr "para os árabes", voltava a Portugal aos 31 anos de idade.
A Rádio Popular/Boavista tinha perdido dois bons corredores, o Frederico Figueiredo e o Daniel Silva. Mantinha o Rui Sousa, com 41 anos de idade, e outro bom elemento, o David Rodrigues. Porém com mais hipóteses - que não para ganhar  - estava o João Benta, 30 anos de idade, no seu melhor ano, top dez nas Asturias, no Beiras e Serra da Estrela e no Joaquim Agostinho e um ex-desempregado do ciclismo, Egor Silin, despedido em 2016 pela Katusha.
A Efapel tinha perdido o Joni Brandão e fora buscar o ícone Sérgio Paulinho, lembremo-nos, com 37 anos nas pernas. Com Jesus del Pino ganhara o  Beiras e Serra da Estrela e tinha feito um top 10 em Castilla y Leon mas não era este o chefe de fila apresentado mas sim o Sérgio. Havia ainda um top  10 da Volta do ano passado, Henrique Casimiro.
O Louletano punha à cabeça Vicente Garcia de Mateos, homem de 28 anos há 4 na equipa, e só. Por trás um top 10 na Volta do ano anterior, uns bons resultados na época e a sua fama de "puncheur", coisa tão rara por cá.
O Sporting, ou melhor, o Tavira tingido de verde, deixara de ser a equipa do refugiado italiano Rinaldo Nocentini, com 39 anos, e tinha contratado o ex-vencedor da Volta Alejandro Marque, o melhor ciclista português do pelotão nacional de 2016 Joni Brandão, e uma ex-jovem esperança, o interessante Frederico Figueiredo.  
E a W52? Com três ex-vencedores da Volta, Ricardo Mestre, Rui Vinhas e Gustavo Veloso, a equipa tinha ainda muito mais para mostrar: o jovem Joaquim Silva, ex-top 10 do Tour de l'Avenir, e Raul Alarcón e António Carvalho, dois corredores fortes que já em 2016 tinham sido fundamentais no controlo da Volta, a par de Ricardo Mestre. Alarcón parecia aliás pelo correr da época o corredor mais forte no pelotão português, a par de... Amaro Antunes, o grande reforço da W52, que ganhara no Malhão na Volta ao Algarve.

Portanto... equipa equipa era a W52 e, talvez, o Sporting, as outras apenas uns retalhos com dois ou três corredores de jeito sem mais. 

Acontece que o Sporting perde o Joni Brandão ANTES da Volta por doença (qual, já agora?) e o Frederico Figueiredo nas primeiras etapas, por duas quedas. Ficava o Sporting reduzido ao Marque e ao Nocentini, cujas idades combinadas perfazem 74 anos...

A Efapel apostou erradamente num Sérgio Paulinho que já não devia estar a correr. O Louletano conseguiu o pódio com o Garcia de Mateos e fez disso uma vitória. A Radio Popular festejou uma vitória de etapa do Rui Sousa como se fosse um record olímpico e já está! A LA sem o Edgar Pinto desapareceu em combate.

Que a Volta a Portugal ia ser um passeio para a W52 podia ler-se nas cartas e sem necessidade de grandes doses de ESP (extra-sensorial perception).

Mas...

Por falar em ESP, porque é polémica a equipa W52/F.C.Porto? O seu director desportivo chama-se Nuno Ribeiro e conhecemos o seu passado: como ciclista perdeu uma Volta por doping. Foi há pouco tempo ainda, as coisas estão frescas. O mesmo aconteceu com o Agostinho, com o Marco Chagas... A verdade é que o domínio foi o esperado, as tácticas as correctas e, não fosse Veloso estourar na Torre, a W52 teria ocupado por completo o pódio final. A chatice é que circulam por aí uns números que dão aos homens da W52 subidas com watts estilo World Tour... CONVINHA ESCLARECER, Nuno, ok?


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Rui Costa e o seu problema com o Tour.


O ciclismo é um desporto diferente dos outros. E a palavra que talvez possa melhor explicar o porquê é a palavra “pelotão”. É uma palavra com ressonâncias militares. E, na verdade, qualquer prova de ciclismo é uma batalha – se de um dia – ou uma verdadeira guerra, se de vários dias. Cada equipa um exército, com cada elemento com os seus argumentos para contribuir para o desfecho da batalha, da guerra. Cada exército, cada equipa, tem o seu general, o seu chefe, e objectivos. Numa prova de três semanas a guerra é mais complexa e terá um objectivo maior – a conquista do primeiro lugar na geral, embora vários outros objectivos se possam equacionar – as outras classificações, vitórias em etapas. Mas, ao contrário das guerras convencionais, aqui “pelotão” há só um, o que implica uma lógica compacta e fechada, com um código de honra, um conjunto de regras não escritas, e que, num passado que já terá passado, facilitou a cultura de doping que se tornou tão intrínseca a este desporto. O pelotão do ciclismo internacional foi, ao longo das décadas, tendo uma figura que “dominava”, sendo habitualmente essa figura o melhor corredor, que, também habitualmente, se fazia rodear da melhor equipa. Se enumerarmos os “patrões” que o pelotão internacional foi tendo desde os anos cinquenta enumeramos Fausto Coppi, Louison Bobet, Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Miguel Indurain, Lance Armstrong, Alberto Contador, Christopher Froome. A subida a este estatuto de “patrão do pelotão” adquiria-se na Volta a França. Uma vitória na Volta a França desde os anos cinquenta resultou quase sempre, com poucas excepções, da combinação de excelentes contra-relógios com boa montanha. Nas épocas de transição entre patrões, anos onde se correram os Tours mais emocionantes porque com mais incerteza no desfecho, ganharam escaladores como Bahamontes, Charly Gaul, Pedro Delgado, Pantani. A Volta à França domina tanto o imaginário do ciclismo internacional que quase obliterou a existência de uma época ciclística durante todo um ano, de Janeiro-Fevereiro a Outubro-Novembro, com múltiplas provas a pedir habilidades e forças diferentes e a permitir vitórias a diferentes tipos de ciclistas. Os ciclistas que contavam eram primeiro o patrão e depois aqueles que, no alto das montanhas, no Tour, conseguiam acompanhá-lo e, às vezes, desafiá-lo. Por isso nos últimos anos havia ciclistas que quase só corriam o Tour e algumas provas pouco antes e/ou pouco depois, tipo Armstrong. Por isso a memória de Agostinho é a memória de o ver quase sempre naquele grupo restrito de eg. dez corredores que se formava lá no alto, entre 1969, a sua primeira participação, e 1980, a sua última participação a terminar em top 10. A não ser com José Azevedo enquanto gregário de luxo de Armstrong, isso nunca mais voltou a acontecer. Ano após ano, o leigo do ciclismo espera de Rui Costa isso mesmo, a sua presença entre os primeiros lá em cima. O fenómeno vulcânico e inexplicável que era Agostinho cria esta sombra, esta ansiedade. E este ano estamos onde estávamos: desiludidos. 
Haja quem explique que Rui Costa já foi Campeão do Mundo, que já fez pódio em dois Monumentos mas que, muito provavelmente, nunca fará um top 10 no Tour.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

E agora, Rui?

E agora, Rui? Terminou a primeira parte da época e esta foi e não foi boa para Rui Costa. Top ten frequente, um pódio valente na Liége-Bastogne-Liége. Muitos pontos ganhos mas nenhuma vitória. E é de vitórias que se alimenta o ciclismo. Rui Costa termina o seu contrato este ano na Lampre. O seu rival Diego Ulissi acaba de ganhar duas etapas no Giro, e é italiano.
Rui Costa volta agora à Suíça, onde já foi feliz. Evita o Dauphiné onde estão quase todos os maus da fita. Qualquer coisa abaixo da vitória, para quem já ganhou a Volta à Suíça três vezes, terá um sabor amargo. E depois o Tour, o Everest. Onde Rui Costa desistiu em 2014, em 2015. Ele diz que, se calhar, é melhor vitórias em etapas do que um top ten. Para se diferenciar de Ulissi, não sei. Lembremos que, uma vez mais, o Rui vai para o Tour como se não tivesse equipa.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Philippe Thys


Philippe Thys descending the Tourmalet in the 1913 Tour de France


Philippe Thys foi o primeiro corredor a ter uma carreira "moderna". Nascido em Anderlecht, bairro de Bruxelas, em 1889, foi campeão belga de ciclo-cross em 1910, aos 21 anos. No ano a seguir venceu o Circuit Peugeot, uma espécie de Tour de l'Avenir daqueles tempos. Em 1912 correu o seu primeiro Tour de France e foi sexto. Corria pela equipa Peugeot onde o melhor era outro belga, Marcel Buysse, o primeiro de uma família de ciclistas. No ano  a seguir a história do Tour de France far-se-ia com dois belgas e um francês. A primeira história, mítica, tem a ver com Eugene Christophe, que, à frente da corrida, quebrou a forquilha da bicicleta ao descer o Tourmalet. Pelas regras de então teve que procurar um ferreiro e ele próprio, na forja, reparar a bicicleta. A partir daqui o francês Christophe afundou-se na classificação. Buysse passou para primeiro e, com Thys, revelou ser o melhor trepador: ganhou seis etapas no total, num total de quinze. O tempo perdido em - também - vários acidentes de bicicleta ofereceram a vitória aquele que parecia ser o segundo homem da equipa, Philippe Thys. Thys ainda não tinha 24 anos. Como seria 1914?
Em 1914 Thys já era um elemento importante do pelotão: participou em algumas corridas de um dia, mas o seu grande feito foi ter vencido o Tour sendo primeiro da primeira à última etapa. A maior ameaça desta vez foi o campeão francês Henri Pelissier, um apelido que se repetiria em outros ciclistas também. Thys trepou com os melhores e foi regular durante todas as etapas. Pelissier era melhor sprinter mas o Tour era agora uma competição por tempos, ergo... Thys nestas duas vitórias marcou o padrão de quase todas as vitórias daqui para a frente - subir com os melhores e nunca perder tempo nas restantes etapas. A única coisa que faltava para equiparar estas vitórias às actuais era ainda não existirem contra-relógios. E... aconteceu a Grande Gerra.
Philippe Thys conseguiu sobreviver à Grande Guerra, ao contrário de muitos dos seus concorrentes. Esteve na aviação francesa mas nos intervalos correu alguma coisa e, assim, ganhou os Paris-Tours de 17 e a Volta à Lombardia no mesmo ano. Sendo um corredor do Tour por excelência, também aqui marcou um padrão: ficava bem a um ganhador do Tour vencer também algumas clássicas. Naqueles tempos o Paris-Tours era muito importante, e a Volta à Lombardia foi ganha à frente de... Pelissier, o rival de 14!
E chegámos a 1919. Thys não estaria bem? Fez segundo no Paris-Roubaix, a mais importante corrida de um dia de então, atrás do rival Henri Pelissier... e abandonou o Tour no primeiro dia: um colega de equipa foi penalizado em meia hora por dar-lhe uma garrafa de água: então não era permitido!
Em 1920 Philippe Thys voltou à sua tática vencedora: subir com os melhores e não perder tempo nas outras etapas. O melhor trepador, e que tinha ganho o Tour de 1919, outro belga chamado Firmin Lambot, era pior rolador e, portanto, acabou terceiro a uma hora de distância. Os primeiros sete na classificação final eram belgas, A Bélgica tinha um je ne sais pas quoi para o ciclismo... Pélissier abandonara cedo com duas etapas ganhas...
Em 21 Philippe Thys não fez nada de especial: abandonou cedo no Tour, foi marcando presença noutras corridas. No fim do ano celebrou-se em Paris uma prova em circuito de estrada atrás de um motociclista: o "Criterium des As" - uma prova hoje lendária que durou até 1990 e que foi ganha por todos os campeões e onde Acácio da Silva foi terceiro em 86! O primeiro vencedor? Philippe Thys. Em 22 Thys chegou ao Tour disposto a ganhar a quarta. Mas as avarias mecânicas também aconteciam a Thys e na etapa dos Pirenéus, a 6ª, Thys perdeu mais de três horas. Vingou-se vencendo as três etapas seguintes, mas era tarde demais. Segunda vitória do trepador Firmin Lambot e a sétima vitória belga consecutiva! Em 1923 Henri Pélissier finalmente conseguia ganhar e assim quebrar a hegemonia belga. Philippe Thys começou mas não acabou, não se fazendo notar: com 34 anos, seria o fim? Thys portou-se melhor no Tour de 1924, mostrou-se, ganhou duas etapas, mas acabou 11º. Era a vez do primeiro italiano ganhar o Tour, Bottecchia. Havia outro Buysse na estrada, o Lucien, e era terceiro, a primeira grande figura luxemburguesa do ciclismo, Frantz, era segundo. Todos bem mais novos. Nenhum deles conseguiria repetir as vitórias de Thys: só em 1955 voltaria a acontecer um triplo vencedor do Tour de France.  Thys ainda participou no Tour de 1925, mas abandonou a meio ser ter sido top 10 em nenhuma etapa. Quando Bobet ganhou o seu terceiro Tour em 55, Thys esteve presente para o cumprimentar: o seu recorde durara 35 anos! O inventor do Tour, Henri Desgranges, não lhe poupou elogios e perguntava-se: se não tivesse acontecido a Grande Guerra, quantos Tours teria vencido Philippe Thys? 
Philippe Thys foi o primeiro grande corredor de ciclismo onde as suas vitórias no Tour de France constituiram a parte mais importante de um brilhante palmarés. E ainda hoje é o segundo belga que mais Grandes Voltas venceu, ultrapassado só por... Merckx!
Bill McGann do site "BikeRaceInfo" escreve apenas: "I think Belgian racer Philippe Thys is the greatest Tour de France rider in history!"

sexta-feira, 4 de março de 2016

Odiel Defraeye.

Não há coração que vibre mais com o ciclismo do que o coração belga e, neste, o ventrículo esquerdo é flamengo. E este bater, este latir mais forte do que todos, comecou a ouvir-se com mais força em 1912 quando Odiel Defraeye foi o primeiro belga a ganhar o Tour de France. Defraeye, não Defraye como os franceses escrevem, nem Odile, já era conhecido como um bom ciclista, mais ainda quando nesse ano de 1912 conseguiu ganhar o Volta à Belgica. Contratado pela Alcyon para ajudar o francês Gustave Garrigou a repetir a vitória no Tour, rapidamente se percebeu que Odiel estava mais forte. E a vitória foi sua. Repetia o feito do francês Petit-Breton, o único a ganhar antes os dois Tours. Defraeye foi um herói fugaz mas decisivo para a história do ciclismo belga: a Volta à Flandres inventou-se em 1913 e os seis Tours de France seguintes foram ganhos por belgas. Odiel fora campeão de Flandres em 1910 e da Bélgica em 1911. O anus mirabilis de 1912 teve uma sequência efémera com uma vitória "longe" na Milano-Sanremo de 13. O Tour de 13 foi seu até à sétima etapa em que abandonou. Outro belga virá a ganhar. Veio a Grande Guerra e tudo parou. 



Depois da Grande Guerra Odiel voltou a pegar na bicicleta para ganhar algum dinheiro extra. O êxito foi escasso. Montou um negócio em De Panne, terra ciclista da Flandres ocidental, onde acabou por morrer.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Octave Lapize.

Sobre este corredor não consegui apurar grandes facetas pessoais. O número "três" define a sua carreira. Nascido em 1887 em Paris filho de migrantes do Auvergnat, em 1909 distingue-se ao ganhar um primeiro Paris-Roubaix. Ganha o Tour de 1910 dentro de uma equipa, a Alcyon - uma marca de bicicletas - muito dividida entre ele e François Faber, corredor bem mais conhecido e com mais palmarés mas, na realidade, com a mesma idade. O Tour de 1910 ficou conhecido por esta enorme rivalidade e por numa etapa gigantesca de 326 km pela primeira vez se ter subido vários grandes cols dos Pirenéus entre os quais o Tourmalet. Lapize ganhou esta e a outra etapa dos Pirenéus mas chamou os juízes da organização de "Assassinos!", pela dureza do percurso. Com esta acusacão ficou para a história. Naqueles tempos a definição de estrada era o que a organização quisesse. Lapize nunca mais voltou a terminar um Tour. Pelo contrário venceu três vezes seguidas o Paris-Roubaix, o Campeonato Nacional Francês e o Paris- Bruxelles. Em 1911 venceu as três provas de um dia mais importantes que saiam de Paris, -Roubaix, -Tours e -Bruxelles.
Três anos depois do início da Primeira Grande Guerra, Octave Lapize, piloto de aviões, foi abatido e morreu num hospital de campanha.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

François Faber.

Quando se fala de ciclismo fala-se de França, da Bélgica, de Itália. Mas, logo ali ao lado, um pequeno país como o Luxemburgo, com o tamanho e a população do distrito de Aveiro, já teve quatro vencedores do Tour de France. O primeiro aconteceu logo em 1909 e dava pelo nome de François Faber.
O ciclismo, então como hoje, era um desporto popular onde os campeões habitualmente surgiam das  camadas menos favorecidas da população. François Faber trabalhava nas docas quando comprou a sua primeira bicicleta e, aos 19 anos, decidiu experimentar a competicão. Filho de um luxemburguês e de uma francesa, manteve a cidadania do pai embora sempre residisse em França. É possível que usasse esse subterfúgio para fugir ao serviço militar. Mas não o terá feito por cobardia pois, em 1914, alistou-se na Legião Estrangeira e morreu na frente da Primeira Grande Guerra, um ano depois.

Os corredores grandes - François Faber era alto para a época, e forte, ou pesado - têm um handicap óbvio no ciclismo - as subidas. Naqueles tempos não se subia tanto assim e François Faber até não subia mal. Também, oito décadas depois, Indurain não era pequenino e trepava o que era preciso. Faber começou a correr em 1906, portanto, como independente. Em 1907 tem um contrato com uma equipa e já brilha aqui e ali no Tour. Tem 20 anos. Em 1908 é segundo e Petit-Breton faz a sua famosa profecia "Je suis convaincu que cet homme-là sera imbattable l'an prochain." Faber termina o ano a ganhar a Volta à Lombardia, a sua primeira clássica.
Em 1909 ganha o Paris-Bruxelles e destroça a concorrência no Tour ganhando cinco etapas seguidas - feito ainda não igualado - e terminando primeiro. L'Auto publicaria  "Le géant de la route : François Faber, ses débuts, sa carrière, ses Tours de France, comment il s'entraîne..."
Faber é então conhecido como "le géant de Colombes", onde vive. Um meio-irmão mais velho, Ernest Paul, também é ciclista e é conhecido como "Ernest Faber" no pelotão embora tenha pai diferente e, portanto, seja francês e não luxemburguês. François Faber é um herói, um homem famoso. Que porém, na época de defeso, no inverno 1909-10, volta a trabalhar nas docas.


 
A época ciclista de 1909 tinha terminado com uma vitória de Faber no Paris-Tour, muito discutida: o vencedor "real", a nova coqueluche francesa Oscar Lapize, tinha-se enganado no percurso, coisa naqueles tempos muito frequente. Em 1910 Lapize ganha Paris-Roubaix e Paris-Bruxelles. Faber não dá sinal de vida. No Tour correm na mesma equipa mas esta divide as suas lealdades e acontece muita faca e alguidar durante as etapas. Uma queda de Faber provocada por um cão - lembram-se de Agostinho? - decide a corrida a favor de Lapize. Faber é segundo. Faber vinga-se ganhando sem espinhas o seu segundo Paris-Tours, onde Lapize... não comparece.
Faber nunca se recompôs por completo desse Tour perdido por tão pouco. Em 1911 ganhou um Bordéus-Paris e em 1913 um Paris-Roubaix. O Tour era agora um pouco mais acidentado - subia-se mais - e Faber contentava-se em ganhar etapas. Em 1913 é quinto, nono em 1914. Em 1913 casa-se e visita pela única vez na sua vida o seu país, o Luxemburgo, a convite do Grão-Duque.
Quando da sua morte nas trincheiras a sua esposa tinha dado à luz, dias antes, uma filha.

No Luxemburgo disputa-se em sua honra uma prova modesta, de um dia, o GP Francois Faber. Nos anos oitenta venceu-a um luso-luxemburguês chamado Francis da Silva. É o irmão mais velho de Acácio da Silva.

domingo, 10 de janeiro de 2016

E agora, Rui?

Rui Costa pode ter no ano de 2016 uma época decisiva. É o terceiro de três anos de contracto com a única equipa italiana WorldTour, a Lampre. Rui Costa em 2013 prometeu no Tour ser um corredor GC - para a classificação geral - de mão-cheia. Se não fosse ter precisado de ficar a apoiar Valverde numa determinada etapa, o Rui parecia capaz de facilmente fazer um top dez - eventualmente não ganhando as etapas que ganhou. Vinha de ser Campeão do Mundo e, portanto, parecia um dos corredores all-rounders - isto é, capazes de ganhar em todos os terrenos - mais capazes do circuito. Dois anos depois o que ganhou Rui Costa? Uma Volta à Suiça em 2014, a terceira seguida, e uma etapa no Dauphiné em 2015. Para um qualquer outro corredor português seria muito, para o Rui foi pouquito. Outros pódios - eg. Lombardia em 2014 - e quases-pódios não desfizeram o facto de para o site CyclingNews o Rui nem constar nos ciclistas que "em 2016 têm que provar alguma coisa". O Rui parece que não conta. A Lampre, entretanto contratou - surpreendentemente -  a estrela sul-africana Louis Meintjes, de 23 anos, que foi décimo na Vuelta do ano que passou. Just in case...

Rui, põe-te a pau...

PS.: na Eurosport em 2014 toda a publicidade da Lampre-Merida girava à volta de Rui Costa, então Campeão do Mundo. Em 2015 a estrela publicitária era Sacha Modolo, um italiano...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Maurice Garin.

No palmarés Petit-Breton aparece como o primeiro vencedor duplo do Tour, mas podia não ter sido assim. E a história do Tour de France começou com a vitória do melhor corredor que em França naqueles tempos havia - e logo ali o trono do Tour pareceu ser como "a consagração". E assim é ainda. Na fotografia abaixo Maurice Garin, o vencedor do primeiro Tour, com 32 anos, aparece acompanhado pelo seu massagista a fazer uma pausa, dando uma passa. Ao seu lado o filho, com uma bicicleta de brincar. No braço esquerdo a braçadeira verde que distinguia o líder da prova: ainda estava por inventar a camisola amarela.

Maurice Garin nasceu italiano de um casamento misto italiano-francês no vale de Aosta, Itália, sob a égide do Monte Branco. Ele e a sua família emigraram para o norte de França e Garin começou a trabalhar como limpa-chaminés, ainda adolescente, trabalho que, naqueles tempos, era frequentemente entregue a adolescentes, se não muito altos... Maurice Garin era entroncado mas baixo. Ele e os irmãos abriram uma loje de bicicletas em... Roubaix. E Garin começou a correr. Com tempo vieram as vitórias. A primeira vitória foi numa corrida onde era o único amador. Negaram-lhe o prémio. O público fez uma colecta e ele assim acabou por ganhar ainda mais dinheiro. Isto aconteceu em 1894, tinha 23 anos. A loja de bicicletas abriu em Roubaix em 95. 

Maurice Garin foi o vencedor das segunda e terceira edições do Paris-Roubaix. Venceu o Paris-Brest-Paris em 1901. E, após várias tentativas, o Bordeaux-Paris de 1902. Entretanto tinha-se nacionalizado francês. Quando do início do primeiro Tour, em 1903. Maurice Garin era o corredor de bicicletas com melhor palmarés no activo. E portanto o favorito. Do outro lado um corredor cinco anos mais novo, Hippolyte Aucoutourier, vencedor nesse mesmo ano, 1903, das corridas mais prestigiadas, Paris-Roubaix e Bordeaux-Paris. 

Maurice Garin venceu o primeiro Tour de France porque era forte, raçudo, regular. Ganhou a primeira etapa e foi portanto primeiro do princípio ao fim. As seis etapas tinham uma média de 400 km. Aucoutourier desistiu logo na primeira etapa. Estranhamente os desistentes podiam voltar a correr, embora deixassem de contar para a classificação geral. Eram tempos mesmo antigos: não havia equipamento oficial: se alguém decidisse correr de fraque podia, não havia regulamento que o impedisse. Mas já havia equipas: Garin era da "La Française". Aucoutourier aproveitou para ganhar algum dinheiro e... a segunda e terceira etapas. Mas Garin ganhou a quinta e sexta. Chegaram vinte e um corredores ao fim, a Paris. O segundo foi Lucien Pothier, da mesma equipa, Lucien Pothier foi também o primeiro "imediato" a brilhar no Tour. 

A vitória de Garin em 1903 foi celebrada como um feito titânico, e foi. O Tour de 1904 foi outra história.


Depois do êxito de 1903, o Tour de 1904 foi um desastre insurreccional. O público francês estava apaixonado pela "sua" corrida. Mas mais pelos seus corredores favoritos. Houve pancadaria, trapaças, boleias de carro e de comboio, tumultos em vários finais, árvores atiradas para a estrada para impedir a passagem do pelotão. Gerbi, o melhor corredor italiano daqueles tempos, foi "expulso" da corrida a pontapé. Garin escreveu: "eu vou ganhar o Tour, se não me matarem antes." E isto era um retrato do decorrer da prova. 
Maurice Garin acabou por acabar outra vez primeiro, tendo como segundo o seu "imediato" Pothier e em terceiro o seu irmão César Garin, oito anos mais novo. Meses depois Maurice Garin, Pothier, o irmão e mais meia dúzia de corredores, incluindo por ex. Aucoutourier, são desclassificados por "má conduta desportiva". Os relatórios destas decisões desapareceram. Nunca saberemos da justiça ou da injustiça destas decisões. Ganhou afinal o quinto classificado, Henri Cornet, um corredor apenas mediano. Uma suspensão de dois anos fechou o primeiro de muitos escândalos deste desporto e efectivamente terminou com a careirra de Garin, que abriu uma estação de serviço em Lens, onde viveu até ao fim dos seus dias. 

Maurice Garin, le "petit ramoneur", ou "pequeno limpa-chaminés", como lhe chamavam carinhosamente as multidões de antigamente, nunca foi uma figura dominante no crescente mundo do ciclismo. Deu o nome transitoriamente a uma equipa nos anos cinquenta mas pouco depois começou a ter problemas de orientação. Perdia-se em Lens perguntando a quem passava "Onde fica o controlo? O controlo?". Nas corridas antigas havia sítios de passagem onde os corredores tinham que assinar para comprovar que faziam todo o percurso. Morreu em 1957. O velódromo Maurice Garin, construido em Lens nos anos trinta, é destruido em 2012, já quase em ruínas, para abrir caminho à metástase do Louvre, o Louvre-Lens.


domingo, 20 de dezembro de 2015

Lucien Petit-Breton.

Lucien Mazan dito Petit-Breton foi o primeiro herói dos tempos "modernos" do ciclismo, ou seja, dos primeiros tempos em que começou a haver uma temporada ciclista, com o Tour de France como a prova máxima, a prova referência, ali entre Julho e Agosto, existindo um corropio de provas de um dia em França, Itália e Bélgica a preencher o resto da temporada. Antes do Tour de France, como provas de um dia mais importantes estavam o Paris-Roubaix, o Paris-Bruxelles e o Bordeaux-Paris. Depois, a marcar o outono, o Paris-Tours. Em Itália para a primavera já se tinha inventado a Milano-Sanremo e para o outono o Giro de Lombardia. Só havia outra prova de etapas, recém-inventada e que era o Tour de Belgique, a acontecer pouco antes do francês. O Giro de Itália estava pensado mas ainda por inventar. As bicicletas eram umas revolucionárias pasteleiras, e os ciclistas tinham que ser fortes, rápidos mas também expeditos mecânicos das suas máquinas. Uma corrida era decidida na força, na garra mas também na sorte pura e dura, pois os buracos eram crateras, os furos, com frequência provocados por epidemias de pregos distribuidos pela estrada, mais que muitos, e os desaguisados entre corredores frequentes. Era uma vida dura mas onde um vencedor era um herói para milhares e isto conseguido só com dar ao pedal. Como não sonhar?

Lucien Mazan, nascido em 1882, era filho de um relojoeiro francês que tinha emigrado para Buenos Aires. Muito novo ainda e na Argentina começou a sonhar com as corridas de bicicleta e a praticar, ganhando a argentinos. Fugiu literalmente para a pátria-mãe num barco de guerra e começou a correr em pista e a fazer nome. Adoptou o nome de Breton para que o seu pai não o encontrasse como corredor de bicicletas nas notícias desportivas, e acrescentou o prefixo Petit- porque Breton apenas já estava tomado. Rapidamente Lucien Petit-Breton era dos melhores corredores em pista de França. A corrida em pista era popular, sim senhor, mas os heróis eram os senhores da estrada. E Lucien decidiu fazer a transição, não sem antes ganhar um "Bol d'Or" em 1904, uma corrida completamente bruta em velódromo onde ganhava quem mais km fazia em 24 horas! No caso dele foram 852! Em 1905 estabeleceu um muito jovem record mundial da hora, que durou dois anos.
Lucien Petit-Breton corre o primeiro Tour em 1905  e é quinto. Em 1906 é quarto. Em 1907 aproveita uma penalização de Emile Georget, aquele que parecia ser o corredor mais forte em prova, e sobe ao primeiro lugar, agarrando-o depois com unhas e dentes e uma daquelas fugas do "antigamente": duzentos e cinquenta kms! Naqueles tempos a classificação final do Tour era por pontos pelo que ganhava-se o mesmo quer a vantagem fosse de um metro ou de dez km. Lucien Petit-Breton fez "a tal fuga" porque podia e para humilhar a concorrência. Já então era assim... 
Petit-Breton também ganhara um Paris-Tours em 1906 e um Milão-Sanremo em 1907, mostrando a sua capacidade de vencer em todos os terrenos. O Tour destes primeiros tempos - o de 1907 tinha sido o Tour número cinco - já tinha alguma montanha mas por questões logísticas e de espectáculo não existiam chegadas em alto, que demorariam décadas a acontecer. Petit-Breton não escalava mal mas descia sobretudo muito bem e era um óptimo rolador. 
1908 foi o ano Petit-Breton, que ganhou o Paris-Bruxelas e, em sucessão os Tours da Bélgica e de França, sendo neste o primeiro corredor a repetir a vitória, ganhando cinco das catorze etapas. 
Petit-Breton casou no fim do ano e abriu um estabelecimento, declarando, aos 26 anos, a sua retirada. Porém, possivelmente, o jovem bretão terá compreendido rapidamente que dar ao pedal era bem mais fácil e simpático do que ficar atrás de um balcão: voltou às lides ciclistas já em 1909, comparecendo à partida do primeiro Giro de Italia - não o terminou. O ciclismo que o tinha coroado como o seu primeiro grande herói não lhe permitiu terminar mais nenhuma grande corrida: desistiu dos Giros de 1909, 10 e 11, bem como de cinco Tours, os de 10, 11, 12, 13 e 14. Nem voltou a ganhar mais nenhuma prova de um dia. Petit-Breton foi o primeiro campeão a parar e retomar a competição sem sucesso, ficando naquele meio caminho de quem não quer desistir mas também não está pronto para assumir os grandes sacrifícios que as grandes vitórias pedem. Ou terá sido apenas má sorte?
Morreu em 1917, ao 35 anos, dias após ter tido um acidente na frente da Primeira Grande Guerra, onde era, logicamente, estafeta.
Petit-Breton era um ciclista elegante, rápido, bem apessoado. Num tempo de selvagens era considerado um adversário correcto. O seu feito foi bem entendido como tal naqueles tempos. Quando acudiu em 1909 ao primeiro Giro de Italia foi-lhe dado, honorificamente, o dorsal número um - como sendo o melhor ciclista "que havia". Petit-Breton também inovou ao escrever para um jornal as suas impressões sobre a corrida durante o Tour de 1908. E, no fim deste, ao mesmo tempo que anunciava a sua retirada, prognosticou a vitória de Faber - um moço franco-luxemburguês  que tinha ficado em segundo e com 21 anos apenas - no ano seguinte, como efectivamente veio a acontecer.
Lucien Petit-Breton pertence a alguns clubes exclusivos, o dos corredores que ganharam dois Tours - e seguidos - o dos corredores que ganharam o Tour e detiveram o record mundial da hora, o dos corredores que ganharam o Tour e a Milano-Sanremo. Não se pode escrever a história do ciclismo de estrada sem falar, e muito, de Petit-Breton.