domingo, 8 de abril de 2018

Hoje é o Paris-Roubaix.

Hoje é o Parix-Roubaix, ontem terminou a Volta ao País Basco e portanto a época acabou de começar, agora já estamos no mais grosso da coisa. 
Nesta fase há duas narrativas paralelas que decorrem. Uma é a das clássicas do "pavé", cheias de corredores sólidos e pesados. A outra é a das provas de uma semana que vão transportando os ciclistas voltistas até ao Giro ou até ao Tour. 

E ontem acabou a Volta ao País Basco. Que prova bonita de ver, e que prova confusa! Conclusões foram umas quantas. Primeira: Primoz Roglic é dos ciclistas mais interessantes que para aí há e é um futuro grande voltista. Tem 28 anos, sobe mais do que razoavelmente e é um excelente contra-relogista. Deu dois minutos à concorrência o que é obra! Segunda: nem sempre quando a Movistar mete toda a carne no assador a vitória é certa. Landa e Quintana não se ajudaram. E ganharam... nada. Landa parece estar afinado, Quintana preocupa. Vamos ver no Tour. Terceira: a Sky gastou as pilhas. Nem em Flandres nem em Euskadi fez sombra a ninguém. David de la Cruz foi 9º em Euskadi... Quarta e última: e a malta que é candidata ao top cinco do Tour? Que se passa com eles? Quase todos foram a Euskadi mas porém... Da Movistar já falei - Landa está, Quintana ainda não. Bardet foi 13º logo atrás de Rui Costa. Nibali desistiu gasto pelo esforço que foi fazer um lindo em Flandres. Richie Porte desistiu anonimamente, coisa rara nele. Uran aguentou um top dez até também desistir. Zakarin foi 21º e até andou a entreter-se em fugas mal sucedidas. Mollema fez a coisa do costume: mais ou menos e terminou em 7º. Faltaram Daniel Martin, que este ano ainda não deu sinais de vida, e Pinot, idem. Valverde não conta para estas contas. Da Sky Froome nunca fez Euskadi e Thomas deve estar a consultar o I Ching para saber o que vai ser o seu papel no Tour. A minha interpretação? Estão todos na retranca a atrasar o mais possível o pico de forma, não vão chegar passaditos ao Tour. É que este ano vai ser um Tour Froome-less, dizem!

E o "pavé"? Quick-Step, e o resto são lérias. A equipa belga até agora ganhou tudo. E o campeão Olímpico van Avermaet ainda não ganhou nada e o campeão Mundial Peter Sagan só ganhou Gent-Wevelgem. O ano deles depende de... HOJE. 

PS.: o Rui Costa está à porta de um mês decisivo, o das Clássicas das Ardenas. Boa sorte para ele!

sexta-feira, 30 de março de 2018

Depois de amanhã é coisa a sério. a Volta a Flandres!

Depois de manhã acontece a Volta a Flandres. Coisa para ciclistas de barba rija, músculo seco e pulmão quanto baste para 267 quilómetros. Estaremos atentos a Sagan, que venceu em 2016, Gilbert, que venceu em 2017, e Avermaet, que nunca venceu.
E como têm corrido as coisas até aqui? Na pontuação do WorldTour aparece à frente Valverde, que faz 38 anos num dia feriado, o 25 de Abril. Valverde não se prepara especificamente para nenhuma prova de três semanas, é com se estivesse sempre preparado. Alejandro Valverde sofreu uma suspensão de dois anos por estar envolvido na Operación Puerto, um esquema de doping sanguíneo. Desde então corre sem parar, ganha como se não houvesse um amanhã. Como para provar a cada dia que passa a sua qualidade, fazer esquecer a nódoa. Sobram-lhe duas mágoas: só ter ganho uma volta de três semanas, uma de Espanha, antes da suspensão e da existência do passaporte biológico e, por outro lado, nunca ter sido Campeão do Mundo. Esteve perto, bem perto, por exemplo no ano em que Rui Costa o foi. Esta época Valverde já venceu Comunitat Valeciana, Abu Dhabi e Catalunya, Valverde, no que diz respeito a provas de uma semana, é um dos maiores de sempre.
Mas as vitórias de Valverde já não são surpresa. Portanto, o que aconteceu de diferente para nosso entretenimento? As surpresas habitualmente acontecem nas provas de um dia. Portanto, falemos sobretudo de Tiesj Benoot, um jovem belga de 24 que ganhou a Strade Bianche, ou do "velho" Vincenzo Nibali, um homem de três semanas e que já ganhou os três GT's, arrematar a Milano-Sanremo com um ataque inatacável no Poggio. Nibali está a correr para a história, e por isso amanhã vai correr a Volta a Flandres, "para ver como é". Lembro que a Volta a Flandres é um dos cinco Monumentos, as cinco provas de um dia mais importantes do ano. Agora Nibali já ganhou os dois Monumentos italianos, a referida e a Lombardia. Faltam-lhe os outros três...
Entretanto nas provas de uma semana apareceram dois jovens a confirmar o nível que se suspeitava, Marc Soler com a Movistar, e mais  um colombiano, Egan Bernal, com a Sky, este apenas com 21 anos. Tudo o mais gente com pedigree a preparar-se para a Itália, para França, e sem saber se Froome vai estar nelas ou não. E aqui voltamos à vaca fria.
Wout Poels já disse que se Froome não estivesse ELE lideraria a Sky no Giro. Geraint Thomas já disse que se Froome não estivesse no Tour seria ELE a liderar a Sky. Mas tudo aponta que o Giro vai ter que aguentar com Froome, enquanto o Tour vai tentar a via judicial para o impedir de entrar. Portanto, a solidariedade dentro da equipa Sky já mostra rachas. Lembremos que o ciclismo é uma profissão. Se  o ciclismo é justo Froome vai perder a sua vitória na Vuelta do ano passado e também o Giro deste ano, este correndo na estrada. No Tour não vai por os pés.

Mas voltemos ao que interessa, depois de amanhã é a "Ronde".

E os portugueses? Têm-se visto em fugas, não em resultados. Amaro Antunes voltou a correr. E segunda começa Euskadi, com Rui Costa e Rúben Guerreiro. A ver vamos.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O começo de uma nova época? Naaaaa....

A época ciclística ainda não começou. Repito, a época ciclística ainda não começou. Tudo está, todos estão pendentes do caso Froome. Lembrando, Froome acusou valores proibidos de salbutamol na urina na etapa da Vuelta de 2017 em que deu a volta ao texto e distanciou definitivamente Nibali, O mais provável é ter abusado do inalador e portanto devia ser suspenso e perder a Vuelta. Fosse assim simples...
Portanto, enquanto isto nada feito, ninguém liga muito ao que o ciclismo realmente é, uma saga de sacrifício e heroísmo que no século XXI começa no Tour Down Under australiano  e termina em Novembro numa prova qualquer na China. Mas nós vamos fazer de conta que Froome não existe

A malta anda confusa. A Down Under foi ganha por um sul-africano all rounder quase veterano, Daryl Impey, que foi mais esperto do que o Richie Porte do costume. Que depois veio ao Algarve apenas passear. Do outro lado dos oceanos, as forças do World Tour correram a Vuelta a San Juan anestesiadas - ganhou um rapaz argentino da casa. Ainda aconteceu na Austrália a Herald Sun Tour, ganha pelo colombiano Chaves. Enquanto na Colômbia numa prova novinha em folha ganhavam... mais colombianos. Depois viemos para Península Ibérica, uns, fomos para o Médio Oriente, outros. A Valenciana foi comida pelo "eterno" Valverde, quase 38 anos feitos. Depois o Algarve pertenceu á Sky, Andalucia a um herói belga da classe operária, Tim Wellens, de quem eu gostaria de ser muito amigo. No Médio Oriente Dubai foi uma volta plana, ergo ganha por Viviani, feliz, solto e atrevido porque saiu... da Sky. Oman tem alguma montanhinha, e ganhou um gajo novo da Astana, um tal Lutsenko.
Provas de um dia? A Cadel Evans ganhou-a um australiano que finalmente vai aparecer, Jay McCarthy. Nas corridas de Maiorca, de muita tradição, Degenkolb finalmente voltou a ganhar.
Nos sprints? Até Cavendish ganhou, só Kittel até agora é que não: nova equipa novo comboio...

Os portugueses? Rui Costa gripou na Austrália, em Oman já fez mais um segundo lugar e terminou décimo. À Velonews deu a entrevista do costume a dizer que esqueceu de vez as três semanas. Enquanto isto o jovem Rúben Guerreiro está a mostrar serviço. Top dez na Down Under e Herald Sun Tour, segundo no Malhão no Algarve. Algarve onde, porque fez um óptimo CR, Nelson Oliveira acabou décimo, o que, visto o plantel deste ano, foi bem bom. O herói do ano passado do Malhão, Amaro Antunes, hoje na CCC polaca, fez décimo na Valenciana, muito bem, e ia pelo mesmo caminho na Andaluzia mas caiu e desistiu. Vamos ver como segue. José Mendes rolou razoável na Andaluzia, o José Gonçalves idem na Austrália, o Tiago Machado faz kms e por agora é isso, as equipas portuguesas no Algarve este ano nem pio!

Mas escrevo isto só por escrever, porque o importante é o que vai acontecer ao Froome!

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Afinal qual é o problema com a W52/F.C.Porto?

A equipa do Sobrado voltou a ganhar a Volta a Portugal e, mais uma vez, ganhou como quis e "escolhendo" o vencedor. A superioridade foi tanta que, imediatamente, as suspeitas de doping correram mundo. A Volta a Portugal é uma prova de um escalão relativamente baixo, pertencendo ao nível intermédio do European Tour. As equipas portuguesas pertencem ao escalão profissional mais baixo e não estão obrigadas a participar no programa de Passaporte Biológico da UCI. Pelo que sei existe porém um programa de Passaporte Biológico promovido pela FPC...

O pelotão português é composto por seis equipas profissionais, a W52/Porto, o Sporting/Tavira, a Efapel/Glassdrive, a Rádio Popular/Boavista, a Louletano/Hospital de Loulé e a LA Alumínios/Metalusa. As equipas são compostas por um grosso de ciclistas portugueses e uma capa de ciclistas espanhóis que, desde há anos, buscam em Portugal o emprego que lhes falta em Espanha com o fecho recente de muitas equipas profissionais espanholas. Outros estrangeiros são, hoje em dia, excepção. Em décadas que já lá vão corriam cá muitos ciclistas com origem na europa de leste mas já não é assim.

Cada equipa tinha à partida para a Volta bem definidos os seus chefes de fila e as mais valias para a Classificação Geral.
A LA Alumínios tinha o Edgar Pinto que, com dois top 5 na Volta e depois de dois anos a correr "para os árabes", voltava a Portugal aos 31 anos de idade.
A Rádio Popular/Boavista tinha perdido dois bons corredores, o Frederico Figueiredo e o Daniel Silva. Mantinha o Rui Sousa, com 41 anos de idade, e outro bom elemento, o David Rodrigues. Porém com mais hipóteses - que não para ganhar  - estava o João Benta, 30 anos de idade, no seu melhor ano, top dez nas Asturias, no Beiras e Serra da Estrela e no Joaquim Agostinho e um ex-desempregado do ciclismo, Egor Silin, despedido em 2016 pela Katusha.
A Efapel tinha perdido o Joni Brandão e fora buscar o ícone Sérgio Paulinho, lembremo-nos, com 37 anos nas pernas. Com Jesus del Pino ganhara o  Beiras e Serra da Estrela e tinha feito um top 10 em Castilla y Leon mas não era este o chefe de fila apresentado mas sim o Sérgio. Havia ainda um top  10 da Volta do ano passado, Henrique Casimiro.
O Louletano punha à cabeça Vicente Garcia de Mateos, homem de 28 anos há 4 na equipa, e só. Por trás um top 10 na Volta do ano anterior, uns bons resultados na época e a sua fama de "puncheur", coisa tão rara por cá.
O Sporting, ou melhor, o Tavira tingido de verde, deixara de ser a equipa do refugiado italiano Rinaldo Nocentini, com 39 anos, e tinha contratado o ex-vencedor da Volta Alejandro Marque, o melhor ciclista português do pelotão nacional de 2016 Joni Brandão, e uma ex-jovem esperança, o interessante Frederico Figueiredo.  
E a W52? Com três ex-vencedores da Volta, Ricardo Mestre, Rui Vinhas e Gustavo Veloso, a equipa tinha ainda muito mais para mostrar: o jovem Joaquim Silva, ex-top 10 do Tour de l'Avenir, e Raul Alarcón e António Carvalho, dois corredores fortes que já em 2016 tinham sido fundamentais no controlo da Volta, a par de Ricardo Mestre. Alarcón parecia aliás pelo correr da época o corredor mais forte no pelotão português, a par de... Amaro Antunes, o grande reforço da W52, que ganhara no Malhão na Volta ao Algarve.

Portanto... equipa equipa era a W52 e, talvez, o Sporting, as outras apenas uns retalhos com dois ou três corredores de jeito sem mais. 

Acontece que o Sporting perde o Joni Brandão ANTES da Volta por doença (qual, já agora?) e o Frederico Figueiredo nas primeiras etapas, por duas quedas. Ficava o Sporting reduzido ao Marque e ao Nocentini, cujas idades combinadas perfazem 74 anos...

A Efapel apostou erradamente num Sérgio Paulinho que já não devia estar a correr. O Louletano conseguiu o pódio com o Garcia de Mateos e fez disso uma vitória. A Radio Popular festejou uma vitória de etapa do Rui Sousa como se fosse um record olímpico e já está! A LA sem o Edgar Pinto desapareceu em combate.

Que a Volta a Portugal ia ser um passeio para a W52 podia ler-se nas cartas e sem necessidade de grandes doses de ESP (extra-sensorial perception).

Mas...

Por falar em ESP, porque é polémica a equipa W52/F.C.Porto? O seu director desportivo chama-se Nuno Ribeiro e conhecemos o seu passado: como ciclista perdeu uma Volta por doping. Foi há pouco tempo ainda, as coisas estão frescas. O mesmo aconteceu com o Agostinho, com o Marco Chagas... A verdade é que o domínio foi o esperado, as tácticas as correctas e, não fosse Veloso estourar na Torre, a W52 teria ocupado por completo o pódio final. A chatice é que circulam por aí uns números que dão aos homens da W52 subidas com watts estilo World Tour... CONVINHA ESCLARECER, Nuno, ok?


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Rui Costa e o seu problema com o Tour.


O ciclismo é um desporto diferente dos outros. E a palavra que talvez possa melhor explicar o porquê é a palavra “pelotão”. É uma palavra com ressonâncias militares. E, na verdade, qualquer prova de ciclismo é uma batalha – se de um dia – ou uma verdadeira guerra, se de vários dias. Cada equipa um exército, com cada elemento com os seus argumentos para contribuir para o desfecho da batalha, da guerra. Cada exército, cada equipa, tem o seu general, o seu chefe, e objectivos. Numa prova de três semanas a guerra é mais complexa e terá um objectivo maior – a conquista do primeiro lugar na geral, embora vários outros objectivos se possam equacionar – as outras classificações, vitórias em etapas. Mas, ao contrário das guerras convencionais, aqui “pelotão” há só um, o que implica uma lógica compacta e fechada, com um código de honra, um conjunto de regras não escritas, e que, num passado que já terá passado, facilitou a cultura de doping que se tornou tão intrínseca a este desporto. O pelotão do ciclismo internacional foi, ao longo das décadas, tendo uma figura que “dominava”, sendo habitualmente essa figura o melhor corredor, que, também habitualmente, se fazia rodear da melhor equipa. Se enumerarmos os “patrões” que o pelotão internacional foi tendo desde os anos cinquenta enumeramos Fausto Coppi, Louison Bobet, Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Miguel Indurain, Lance Armstrong, Alberto Contador, Christopher Froome. A subida a este estatuto de “patrão do pelotão” adquiria-se na Volta a França. Uma vitória na Volta a França desde os anos cinquenta resultou quase sempre, com poucas excepções, da combinação de excelentes contra-relógios com boa montanha. Nas épocas de transição entre patrões, anos onde se correram os Tours mais emocionantes porque com mais incerteza no desfecho, ganharam escaladores como Bahamontes, Charly Gaul, Pedro Delgado, Pantani. A Volta à França domina tanto o imaginário do ciclismo internacional que quase obliterou a existência de uma época ciclística durante todo um ano, de Janeiro-Fevereiro a Outubro-Novembro, com múltiplas provas a pedir habilidades e forças diferentes e a permitir vitórias a diferentes tipos de ciclistas. Os ciclistas que contavam eram primeiro o patrão e depois aqueles que, no alto das montanhas, no Tour, conseguiam acompanhá-lo e, às vezes, desafiá-lo. Por isso nos últimos anos havia ciclistas que quase só corriam o Tour e algumas provas pouco antes e/ou pouco depois, tipo Armstrong. Por isso a memória de Agostinho é a memória de o ver quase sempre naquele grupo restrito de eg. dez corredores que se formava lá no alto, entre 1969, a sua primeira participação, e 1980, a sua última participação a terminar em top 10. A não ser com José Azevedo enquanto gregário de luxo de Armstrong, isso nunca mais voltou a acontecer. Ano após ano, o leigo do ciclismo espera de Rui Costa isso mesmo, a sua presença entre os primeiros lá em cima. O fenómeno vulcânico e inexplicável que era Agostinho cria esta sombra, esta ansiedade. E este ano estamos onde estávamos: desiludidos. 
Haja quem explique que Rui Costa já foi Campeão do Mundo, que já fez pódio em dois Monumentos mas que, muito provavelmente, nunca fará um top 10 no Tour.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

E agora, Rui?

E agora, Rui? Terminou a primeira parte da época e esta foi e não foi boa para Rui Costa. Top ten frequente, um pódio valente na Liége-Bastogne-Liége. Muitos pontos ganhos mas nenhuma vitória. E é de vitórias que se alimenta o ciclismo. Rui Costa termina o seu contrato este ano na Lampre. O seu rival Diego Ulissi acaba de ganhar duas etapas no Giro, e é italiano.
Rui Costa volta agora à Suíça, onde já foi feliz. Evita o Dauphiné onde estão quase todos os maus da fita. Qualquer coisa abaixo da vitória, para quem já ganhou a Volta à Suíça três vezes, terá um sabor amargo. E depois o Tour, o Everest. Onde Rui Costa desistiu em 2014, em 2015. Ele diz que, se calhar, é melhor vitórias em etapas do que um top ten. Para se diferenciar de Ulissi, não sei. Lembremos que, uma vez mais, o Rui vai para o Tour como se não tivesse equipa.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Philippe Thys


Philippe Thys descending the Tourmalet in the 1913 Tour de France


Philippe Thys foi o primeiro corredor a ter uma carreira "moderna". Nascido em Anderlecht, bairro de Bruxelas, em 1889, foi campeão belga de ciclo-cross em 1910, aos 21 anos. No ano a seguir venceu o Circuit Peugeot, uma espécie de Tour de l'Avenir daqueles tempos. Em 1912 correu o seu primeiro Tour de France e foi sexto. Corria pela equipa Peugeot onde o melhor era outro belga, Marcel Buysse, o primeiro de uma família de ciclistas. No ano  a seguir a história do Tour de France far-se-ia com dois belgas e um francês. A primeira história, mítica, tem a ver com Eugene Christophe, que, à frente da corrida, quebrou a forquilha da bicicleta ao descer o Tourmalet. Pelas regras de então teve que procurar um ferreiro e ele próprio, na forja, reparar a bicicleta. A partir daqui o francês Christophe afundou-se na classificação. Buysse passou para primeiro e, com Thys, revelou ser o melhor trepador: ganhou seis etapas no total, num total de quinze. O tempo perdido em - também - vários acidentes de bicicleta ofereceram a vitória aquele que parecia ser o segundo homem da equipa, Philippe Thys. Thys ainda não tinha 24 anos. Como seria 1914?
Em 1914 Thys já era um elemento importante do pelotão: participou em algumas corridas de um dia, mas o seu grande feito foi ter vencido o Tour sendo primeiro da primeira à última etapa. A maior ameaça desta vez foi o campeão francês Henri Pelissier, um apelido que se repetiria em outros ciclistas também. Thys trepou com os melhores e foi regular durante todas as etapas. Pelissier era melhor sprinter mas o Tour era agora uma competição por tempos, ergo... Thys nestas duas vitórias marcou o padrão de quase todas as vitórias daqui para a frente - subir com os melhores e nunca perder tempo nas restantes etapas. A única coisa que faltava para equiparar estas vitórias às actuais era ainda não existirem contra-relógios. E... aconteceu a Grande Gerra.
Philippe Thys conseguiu sobreviver à Grande Guerra, ao contrário de muitos dos seus concorrentes. Esteve na aviação francesa mas nos intervalos correu alguma coisa e, assim, ganhou os Paris-Tours de 17 e a Volta à Lombardia no mesmo ano. Sendo um corredor do Tour por excelência, também aqui marcou um padrão: ficava bem a um ganhador do Tour vencer também algumas clássicas. Naqueles tempos o Paris-Tours era muito importante, e a Volta à Lombardia foi ganha à frente de... Pelissier, o rival de 14!
E chegámos a 1919. Thys não estaria bem? Fez segundo no Paris-Roubaix, a mais importante corrida de um dia de então, atrás do rival Henri Pelissier... e abandonou o Tour no primeiro dia: um colega de equipa foi penalizado em meia hora por dar-lhe uma garrafa de água: então não era permitido!
Em 1920 Philippe Thys voltou à sua tática vencedora: subir com os melhores e não perder tempo nas outras etapas. O melhor trepador, e que tinha ganho o Tour de 1919, outro belga chamado Firmin Lambot, era pior rolador e, portanto, acabou terceiro a uma hora de distância. Os primeiros sete na classificação final eram belgas, A Bélgica tinha um je ne sais pas quoi para o ciclismo... Pélissier abandonara cedo com duas etapas ganhas...
Em 21 Philippe Thys não fez nada de especial: abandonou cedo no Tour, foi marcando presença noutras corridas. No fim do ano celebrou-se em Paris uma prova em circuito de estrada atrás de um motociclista: o "Criterium des As" - uma prova hoje lendária que durou até 1990 e que foi ganha por todos os campeões e onde Acácio da Silva foi terceiro em 86! O primeiro vencedor? Philippe Thys. Em 22 Thys chegou ao Tour disposto a ganhar a quarta. Mas as avarias mecânicas também aconteciam a Thys e na etapa dos Pirenéus, a 6ª, Thys perdeu mais de três horas. Vingou-se vencendo as três etapas seguintes, mas era tarde demais. Segunda vitória do trepador Firmin Lambot e a sétima vitória belga consecutiva! Em 1923 Henri Pélissier finalmente conseguia ganhar e assim quebrar a hegemonia belga. Philippe Thys começou mas não acabou, não se fazendo notar: com 34 anos, seria o fim? Thys portou-se melhor no Tour de 1924, mostrou-se, ganhou duas etapas, mas acabou 11º. Era a vez do primeiro italiano ganhar o Tour, Bottecchia. Havia outro Buysse na estrada, o Lucien, e era terceiro, a primeira grande figura luxemburguesa do ciclismo, Frantz, era segundo. Todos bem mais novos. Nenhum deles conseguiria repetir as vitórias de Thys: só em 1955 voltaria a acontecer um triplo vencedor do Tour de France.  Thys ainda participou no Tour de 1925, mas abandonou a meio ser ter sido top 10 em nenhuma etapa. Quando Bobet ganhou o seu terceiro Tour em 55, Thys esteve presente para o cumprimentar: o seu recorde durara 35 anos! O inventor do Tour, Henri Desgranges, não lhe poupou elogios e perguntava-se: se não tivesse acontecido a Grande Guerra, quantos Tours teria vencido Philippe Thys? 
Philippe Thys foi o primeiro grande corredor de ciclismo onde as suas vitórias no Tour de France constituiram a parte mais importante de um brilhante palmarés. E ainda hoje é o segundo belga que mais Grandes Voltas venceu, ultrapassado só por... Merckx!
Bill McGann do site "BikeRaceInfo" escreve apenas: "I think Belgian racer Philippe Thys is the greatest Tour de France rider in history!"